Nessa eu não caio. O último papo a enganar cabos rasos e boinas verdes é apelar para o sólido e fundamental argumento de que a democracia deve prevalecer sobre tudo. Por mais que se discorde, que ache um monte de absurdo no que tá rolando em solo e éter brasileiros, timorenses ou angolanos, não pode quebrar as regras do jogo senão vira zona. As nações soberanas e as imparciais instituições democráticas locais e internacionais devem ser respeitadas pois só elas garantem que cada cidadão será respeitado. Lorota. E das grossas.

É claro que a democracia é mais justa e civilizada que as ditaduras militares, que são melhores que os impérios monárquicos, que eram melhores que os feudos, que as tribos, que os bandos e que as famílias de chimpanzés. Nada mais natural. A espécie evolui e com ela os sistemas de organização. O engodo é que alguém sempre mandou e continua mandando. Dizer que o sistema democrático tudo resolve de maneira justa, que os representantes eleitos são instrumento dos direitos humanos, que o sistema de três poderes isentos se auto-fiscaliza e outras frases universais e atemporais é mentira.

O governo democrático manda no resto do país - conforme lhe dá na cabeça - por uma única razão: a eleição lhes confere o poder sobre instrumentos de coerção, isto é, polícia e exército, metralhadoras e cassetetes. Tudo bem, os caras não vestem boina verde. É menos traumático mesmo ver uns engomados de terno e gravata, sorriso e piadas prontas sempre à mão e um convincente e empolado discurso. Devemos respeitá-los, sim, mas quando a coisa começa a engrossar - e já tá mais que grossa aqui pra nós brasileiros - a cortina cai e o espetáculo se revela.

Não vou defender o terrorismo armado e atentados sangrentos. O Brasil sempre foi mais pro futebol-arte que pras caneladas. Mas aceitar o conselho de que devemos expressar nossa indignação apenas nas urnas é ultrajante. Precisamos de uma atitude de guerrilha constante. Guerrilha de palavras, de gestos, quiçá de tomates, mas guerrilha. Rebelemo-nos democraticamente, isto é, com discurso empolado, mãos quase limpas e sorriso na cara.

sub.bar.os.