O
Trem da Morte
Por que morte?
A verdadeira história do Trem da Morte é ainda desconhecida até
para nós. Muitos acham que o este nome existe
por causa do risco em embarcar no tal Trem, porque vai morrer durante
a viagem, mas não é bem assim. A história que mais ouvimos é que
o trem fazia transporte de doentes durante uma grande epidemia de
febre amarela, que ocorreu na Bolívia há muitos anos. A epidemia
passou (e o risco de ficar doente também), mas o nome permaneceu
até hoje.
Para nossa surpresa, o trem é super
bem cuidado (para os padrões bolivianos) e bem mais confortável
do que poderíamos imaginar. Não passamos por nenhum perigo ou risco,
nem com nossa bagagem. Das duas uma: ou tivemos muita sorte, ou
essa história de trem perigoso não passa de balela. Ou as duas coisas.
Embarque e acomodação
Se
você conseguiu comprar uma passagem no horário que queria e não
ficou maluco com a "organização" da Estação Ferroviária Boliviana,
parabéns! Você é um felizardo. Nós compramos passagem para as 15hs,
o que é um ótimo horário para viajar por alguns motivos.
Primeiro: o sol já não está tão
forte e o tempo estará mais fresco (o calor é infernal dentro do
trem!).
Segundo: a previsão de chegada
em Sta. Cruz é ao meio dia do dia seguinte, o que é um horário ideal
para almoçar, conhecer lugares e se preparar para continuar a viagem.
Se tiver chance de escolher horário, prefira a parte da tarde. A
pontualidade também não é a especialidade dos trens bolivianos,
mas é melhor mesmo chegar com antecedência na estação.
O movimento de pessoas e cargas é grande,
por isso não desgrude da bagagem e fique de olho em qualquer tipo
suspeito encarando você. Se se sentir acuado ou perseguido, tente
ficar junto a algum grupo maior de turistas
(é quase certo que vão haver brasileiros ali). Com certeza você
irá se surpreender com o trem e verá que não é nada daquilo que
você imaginava.
Você ficará aliviado em saber que há
poltronas para sentar e que não há nenhum porco ou vaca sentados
ao seu lado. Mas isso também não quer dizer que a viagem será confortável.
Prepare-se para dor nas costas e para ter uma noite de insônia "daquelas".
As poltronas são velhas e um pouco mal cuidadas, além de muuuito
empoeiradas. Mas isso é o de menos, se você tiver tido o azar
de pegar uma passagem com número igual a de outra pessoa.
A desorganização é tanta que são vendidos várias passagens
com o mesmo número, nosso querido companheiro Alberto foi o premiado
e teve de discutir um pouco com os "outros" donos de seu
lugar, um casal de bolivianos mal encarados. Afinal, valeu à
pena: ele garantiu um lugar na janela. Para ajudar mais no desconforto, há
os inevitáveis solavancos. O pior é que não dá nem para culpar a
estrada toda irregular. Quem já andou de trem sabe que é assim mesmo,
quando não se viaja em uma ferrovia bem conservada, o que
definitivamente não é este o caso.
Um olho aberto e outro fechado
Ao
comprar a passagem, você tem a opção de escolher com ou sem refeição.
Apesar das aparências, nós recomendamos o rango servido no Trem.
Lembre-se que a viagem será longa (de 18 a 20 horas) e não haverá
nenhuma parada em um posto de gasolina. Garantimos que o gosto não
é dos piores. O menu é variável,
mas sempre simples: um pedaço de frango, um pouco de arroz, um legume
ou verdura. Se você comprar uma passagem em um vagão da Classe Pullman,
talvez você tenha a sorte (ou azar) de ter televisão e videocassete.
As vezes são cópias de filmes americanos com legendas em espanhol.
Torça para não ter assistido ao filme ainda (nós assistimos ao Medidas
Desesperadas duas vezes durante a viagem, porque eles não
tinham outra fita e ficaram repetindo o filme a noite toda). Se
não, tudo o que você terá a fazer é (tentar) dormir. Se estiver
sozinho, guarde bem a sua mala no bagageiro e, por precaução, amarre
uma ponta da sua mochila à uma corda e a prenda firmemente
às barras do bagageiro. O melhor conselho é: fique na sua.
Se você for bem discreto, ninguém perceberá sua presença e as chances
de você ser roubado serão bem menores. Relaxe e deixe a viagem rolar.
Você será acordado bem cedo pela "ferromoça" oferecendo um copão
de café bem forte. À partir daí, é só curtir o resto da viagem.
A paisagem é bem mais interessante e ainda fica melhor porque será
possível enxergá-la (afinal, será dia).
Quando
desembarcar, confira toda a bagagem, deixe o passaporte bem à mão
(você irá precisar). A estação de Sta. Cruz de La
Sierra é pequena em comparação ao comprimento
do trem. Não estranhe de ter de desembarcar no meio do "mato".
Não tenha pressa, para não esquecer documentos, mochila
de ataque e demais periféricos que você esteja
levando. O Alberto, sempre ele, estava demasiadamente afoito para
se livrar do pó de seu assento que não guardou direito
o seu dinheiro: por pouco ele não perdeu tudo no mato, ao
descer do trem.
Bem
vindo à Santa Cruz de La Sierra! Boa sorte!